quarta-feira, 7 de março de 2012

A LEITURA DO AVESSO


  
Talvez vocês estejam se perguntando sobre o título deste artigo. Vamos começar com a seguinte história. Uma mãe estava bordando um belo bordado em uma tela. De repente vem seu filhinho de quatro anos e se aproxima dela vendo o bordado do avesso por ser muito baixo. Ele pergunta para sua mãe que coisa feia e horrível ela está fazendo? A mãe então abaixa o bordado e mostra o lado direito do bordado para a criança que se surpreende com a beleza de seu trabalho. Esta história tem muito a ver com a nossa vida. Muitas vezes interpretamos as coisas negativas que nos acontecem de forma direta, sem perceber o que pode estar por detrás delas.
Quem sabe seria bom ver as coisas negativas que nos acontecem como algo extremamente positivo. Vamos fazer uma nova leitura de nossa vida para superarmos e convivermos com nossas limitações sabendo oferecê-las. O sofrimento oferecido é uma grande fonte de santificação. O Divino Espírito Santo vai mostrando nossas feridas. Ao mesmo tempo que vamos reconhecendo-as, vamos superando-as ou relativizando-as na técnica do oferecimento.
Vemos que a doença pode ser um sinal de glória (Jo 09, 01-03). Deus permite que tenhamos contato com nossas limitações para podermos perceber que Deus está ativo em nossa vida.
“Deus nos ama acima de nossas limitações”. Muitas vezes o que aparentemente pode ser terrível é algo que oferecido a Deus pode se tornar a tábua de nossa salvação. Vemos os instrumentos de tortura dos mártires e as formas como eles os abraçaram com alegria porque foram os meios de santificação que Deus havia permitido para eles. A tradição diz que Jesus ao receber a cruz a beijou. O que vamos fazer com nosso câncer, com nosso diabetes, com nossas doenças emocionais, com os problemas de relacionamento?
Vamos perceber que a porta estreita é o combate de nosso egoísmo que aos poucos nos leva a um amor mais puro. Estamos em uma segunda gestação ou peregrinação ao eterno. Só o bem que praticarmos nesta vida é que vai permanecer.
Tivemos muitas oportunidades em nossa vida de conhecer o Senhor e sua presença. Cada momento de nossa vida é uma nova oportunidade para reconhecermos que somos amados por Deus. Ele nos criou para sermos suas criaturas prediletas, para fazermos parte de sua alegria. O pré requisito para experimentarmos Deus é a humildade. Através dela seremos capazes de nos adentrarmos no mistério de Deus pela fé vivida na obediência. A humildade nos leva a experiência da verdade.
Percebemos no evangelho de São João uma saudação de Jesus Ressuscitado que encerra tudo o que buscamos nesta vida: “A Paz esteja convosco” (Jo 20, 19). Jesus atravessa as barreiras internas e externas da pessoa para oferecer a sua misericórdia. Esta misericórdia é fonte de libertação e cura para todos que procuraram viver os valores expressos por Jesus em seus ensinamentos. Neste momento nasce o sacramento da Reconciliação que tem várias dimensões de cura interna e externa da pessoa. Nós seremos curados quando vivermos o altruísmo, ou seja, a saída de nós mesmos para sermos instrumentos de salvação de nossos irmãos. Devemos nos esquecer para recordar o que somos diante de Deus.
Só teremos paz no momento que soubermos qual é o objetivo de nossa vida. Esta paz nasce na obediência a Deus. Assim como Maria soube dizer sim devemos seguir o seu modelo para sermos felizes. Quando descobrimos o que queremos nesta vida (a eternidade) então vamos iniciar o nosso processo de conversão tentando concretizar em nossa vida o que o Senhor nos pede. São os dois grandes desafios que nos trazem paz: conhecer o que o Senhor quer de nós e a força de tentar concretizar sua vontade. Ter paz não significa viver longe das provações, dos sofrimentos, significa em meio a instabilidade da vida ter a certeza que estamos no caminho da ressurreição. Por sito acontece que muitos católicos se afastam da cruz e alguns vão para falsas religiões. Buscam um “deus do egoísmo” e da vaidade. Podemos afirmar que uma pessoa que não é católica, mas estuda reza e reflete acaba como católica e o católico que não estuda, não reza e não reflete vai para as falsas religiões.
O nosso passado, as coisas negativas que nos aconteceram são como espinhos que constantemente nos ferem. Precisamos da Paz do Cristo Glorioso presente em nossa vida para eliminarmos definitivamente o mal presente em nossa história. Só o Espírito Santo é capaz de nos curar e santificar.
Somos convidados a abrir nosso coração ao Divino Espírito Santo para que Ele nos fortaleça e faça ver a realidade de nossa vida totalmente preenchida pelo amor de Deus. Necessitamos de cura e libertação, não há exceção para esta realidade. Algum problema, alguma fragilidade Deus permite para que a nossa confiança esteja só em sua força. Temos o nosso “tendão de Aquilis” de nossas fragilidades.
Do que precisamos ser curados e libertados? A resposta podemos encontrar no próprio sentido da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Se não precisássemos ser libertados e curados Jesus não teria passado tudo que passou para nos salvar e não teria enviado o Espírito Santo para nos auxiliar em nosso processo de santificação.
A primeira cura e por consequência, a primeira libertação acontece quando nos livramos do pecado e de sua ressonância em nossa vida. O maior problema do pecado é o nosso isolamento de Deus, quebra de comunicação, e a desconfiança de que Ele possa nos perdoar e aceitar novamente. O pecado nos torna egoístas. Do pecado somos curados pela experiência da misericórdia que acontece de forma gratuita no sacramento da reconciliação.
A nossa oração e todo o nosso empenho deve ser aplicado no reconhecimento do amor que Deus tem por nós. O ser humano é uma bomba que deseja sentir-se amado e amar. Quando fomos amados na nossa infância, na adolescência, na juventude, na fase adulta, enfim, se estamos nos sentindo amados neste momento, estamos em processo de cura e libertação. Devemos viver a espiritualidade do Kairós (Graça de Deus que nos ama neste momento), para sermos felizes. Do que adianta o passado? Do que adianta o futuro? O que importa é o agora vivido no reconhecimento de que estamos sendo amados. São João da Cruz nos diz que o olhar de Deus é amar. Estamos todos sobre o olhar amoroso do Senhor.
A nossa vida é um grande mistério. Passamos por momentos altos e baixos, de profunda alegria e de profunda decepção. Muitas vezes nos colocamos no centro do mundo, somos egoístas e auto suficientes pensando que somos uma fábrica de realização pessoal. O pecado nos faz fortes, nos estampa uma alegria superficial que é capaz de convencer aos outros e a nós mesmos.
O Espírito Santo vem até nós para abrir o verdadeiro horizonte de nossa vida. Jesus nos diz que iremos conhecer a verdade e a verdade nos libertará (Jo 08, 32). Esta libertação é um processo. Inicia nos aspectos morais de nossa vida até chegar ao íntimo de nosso ser, quando nos sentimos moradas de Deus.
Quando olhamos para Jesus com o olhar do filho pródigo (Lc 15, 11ss), estamos abrindo um grande espaço em nosso interior para sermos curados. Quando Jesus curava os doentes olhava para eles especialmente para a abertura ao amor pela Fé. Jesus curava independente da lei judaica, pois para ele era mais importante a salvação da pessoa que um simples cumprir aparente (Lc 14, 01-07). Toda a mensagem de Jesus se relaciona com a cura do egoísmo. Do pensamento que o mundo gira em torno de nosso eu.
A Fé é capaz de nos curar e de curar os nossos irmãos. Somos consagrados a Deus pelo batismo. Exercemos o sacerdócio comum dos fiéis. O cristianismo é bonito pelo seu altruísmo, pela busca da prática do bem em qualquer ambiente. Somos parte da comunidade daqueles que crêem em Deus Trindade. Devemos rezar sempre uns pelos outros para que aconteça a verdadeira libertação.
Não podemos entender Deus sem utilizarmos o verbo sair. Deus saiu de si mesmo para nos criar com a finalidade de participarmos de sua felicidade. Seremos felizes quando fizermos os outros felizes. Rezar pelos outros também é um método para nos livrarmos de nossas fraquezas e limitações.
Hoje percebemos muitos “cadáveres ambulantes”, pessoas que não sabem sua origem e nem seu fim. Não sabem quem as criou e para o que foram criados. As relações comerciais estão acima das relações humanas deteriorando profundamente o sentido da vida humana. Quando nos perguntamos o que somos e para onde vamos não nos conformamos com o consumismo que nos consome.
Somos cristãos (portadores de Cristo pela nossa vida), dentro de um mundo descristianizado. Às vezes podemos até participar ativamente da Igreja, mas estamos longe de viver os valores daquele que é o centro de nossa Fé. Só o amor poderá construir algo em nossa vida.
Podemos perceber na recuperação dos dependentes e dos detentos, que a mensagem que eles necessitam é a realidade de que embora tenham cometidos muitas coisas más, ainda são amados por Deus. Nós até poderemos fazer uma tentativa de esquecer o nosso Criador, mas Ele é incapaz de passar um momento sem se lembrar de nós. Todas as nossas dificuldades, do passado, do presente e do futuro deveram ser “entregues” a Deus. Elas não nos pertencem, estão fora de nós e poderão até servir para a nossa verdadeira realização. Devemos transformar os limões de nossa existência em limonada. Nós sempre vamos ter nesta vida tentações, provações e consolações. Vivemos na instabilidade em busca da estabilidade no amor. Por esta razão estamos em um processo de conversão. Aqui ninguém está pronto.
Quando olhamos para os mártires, vemos ao lado de suas figuras ou imagens o instrumento em que foram torturados. Eles abraçam estes instrumentos tão terríveis de uma forma tão afável e carinhosa que nos impressiona. Acredito que devemos olhar para a nossa história da mesma forma, os instrumentos de tortura que podem ser os aspectos negativos de nossa existência, devem ser vistos de outra forma. Um dia estaremos todos na eternidade e iremos rir de nossas limitações e ver que muitas vezes valorizamos em nossa vida aquilo que não tinha tanto valor e deixamos de lado o essencial.
Como estamos vivendo nossas relações: consigo mesmo, com Deus, com o próximo e com o mundo? Não podemos nos ancorar em nosso passado. Tudo passa só Deus basta nos diz Santa Teresa por que ficarmos ancorados nas sombras de nossa vida sem vermos o sol do amor que Deus sente por nós?
Diante de Jesus vivo em nossa vida seremos curados. Vamos perceber tudo que nos passou de uma forma diferente. O amor irá absorver todas as nossas limitações. Se estivermos amando o Amor nos transforma, buscamos mesmo na noite o essencial e somos transformados por ele.
O olhar para dentro de nós mesmos é essencial para sermos curados. Os dois verbos entrar e sair são fundamentais. Entramos dentro para sairmos. O cristão se realiza no altruísmo e não no egoísmo.
Quando descobrimos que a nossa existência é importante para Deus e para os nossos irmãos nos comprometemos com a realidade. Percebemos na vida dos grandes personagens do Antigo Testamento. Moisés se compromete com o povo ao ver um judeu ser mal tratado. A compaixão fez com que ele perdesse a honra do Egito para ser um libertador do povo de Israel. A solidariedade nos impulsiona a fazermos o bem e até mesmo nos faz esquecer-se de nossas limitações. Moisés percebeu desde o início que era profundamente limitado para libertar o povo, mas a missão o arrastou a fazer o bem. Elias tem uma profunda contemplação de Deus e não é por isto que não se sente limitado, pede até para morrer diante das dificuldades.
Jesus está presente na Eucaristia. Ele quer nos olhar desde dentro, das nossas dificuldades. Quando nos colocamos na presença de Jesus Sacramentado a nossa vida é transformada. A troca de olhares é fundamental. Precisamos nos abrir a momentos importantes de adoração em nossa vida. A reforma de toda a realidade, da nossa vocação, de todo nosso trabalho começa quando nos colocamos diante de Jesus.
Só o amor pode nos curar. Sabemos de fatos concretos de pessoas que se curaram após se sentirem amadas. Crianças deficientes que mal sabiam falar e após uma adoção com muito afeto se transformaram. Nós ainda não sabemos amar. Confundimos amor com sexo ou exploração da pessoa do outro. O mundo materialista procura materializar os nossos corações. Quando nos materializamos nos afastamos da realidade última de nossa vida, nos afastamos do Eterno.
Quando acontece um acidente não nos importamos com nosso braço quebrado se temos que socorrer alguém que está muito mal em nosso lado. Quando colocamos o nosso olhar no Eterno somos capazes de vencer nossas limitações para vermos o essencial.
A oração é o caminho mais seguro para sermos o que o Senhor quer de nós. Quando nos comunicamos com Ele nossa vida muda e vamos entendendo com misericórdia as limitações de nossos irmãos.

Padre Giribone - OMIVICAPE

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