segunda-feira, 14 de abril de 2014

TRÍDUO PASCAL

 

“DEUS FAZ TUDO PARA QUE PARTICIPEMOS DE SUA FELICIDADE”.

A maravilha do cristianismo é saber que não é uma religião que partiu da iniciativa humana. Foi Deus mesmo que veio em busca do ser humano, obra prima de sua criação, para fazer que ele retornasse ao essencial. Ele se fez homem para nos salvar. Veio em nosso meio para mudar a história da humanidade perdida pelo efeito de seu próprio egoísmo. A fé no “Cristo Vivo” manifesta a infinita misericórdia do Senhor em relação as nossas fraquezas. Por esta razão ser cristão de verdade é sempre remar contra a correnteza e lutar contra si mesmo. O maior inimigo que temos é nosso próprio egoísmo.
Estamos iniciando o momento mais importante da liturgia cristã: O Tríduo Pascal. Segundo Santo Agostinho é o Sacratíssimo Tríduo do Crucificado, Sepultado e Ressuscitado. Nele celebramos a vitória de Cristo sobre a morte. Nós cristãos não tememos a morte porque ela é a passagem (PÁSCOA) para a vida definitiva. Os sofrimentos momentâneos que enfrentamos em nossa vida quando oferecidos em forma de oração são meios de preparação para a felicidade eterna. As tristezas momentâneas do seguimento de Jesus vão ter como destino a felicidade eterna. Ele morreu na cruz e apareceu depois para seus amigos. Assim como Ele ressuscitou nós também iremos ressuscitar para a Glória.
Não podemos esquecer que o cristianismo é a única religião que tem como base o testemunho apostólico. Os apóstolos tiveram a experiência de “ver Jesus” depois de sua morte ressuscitado. Esta verdade se torna a base da doutrina da Igreja. Por esta razão os cristãos não seguem uma ideologia ou filosofia de vida. Seguem algo relacionado com suas existências. Algo que exige deles uma constante mudança de vida. O cristianismo é uma religião que visa à prática do bem em vista da vida definitiva. Jesus sofreu para nos mostrar que esta vida é uma preparação para a vida eterna. Deus nos ama muito. A grande prova do seu infinito amor por nós é que Ele além de nos ter criado nos salvou em Jesus Cristo que deu sua vida para nos salvar.
A culminância do Tríduo Pascal não é a morte de Cristo, mas sim a grande vitória sobre a morte na Ressurreição. Assim como Ele ressuscitou um dia também nós teremos esta mesma experiência se vivermos os valores que ele nos deixou dentro de nossa vida concreta. Se crermos na ressurreição de Jesus somos convidados a mudar de vida. Por esta razão nunca será fácil ser cristão.
Deus manifesta sua misericórdia sabendo que somos incompetentes em nossa missão de amar. O cristianismo é religião da misericórdia. Da vinda do Senhor para nos salvar.  Deus coloca o seu coração ao lado do nosso cheio de fragilidades. Vamos nos preparar para esta grande celebração com o abraço do Pai que experimentamos no sacramento da reconciliação que é uma grande forma de nos tornarmos mais livres e felizes. Quando Deus nos perdoa e perdoamos a nós e aos nossos irmãos, acontece na nossa vida uma verdadeira libertação.
Deus nos cria e nos recria para Ele (reconstitui o homem que se perdeu no mal uso de sua liberdade), através dos mistérios da Criação (PAI), Salvação (FILHO) e Santificação (ESPÍRITO SANTO). O homem por si mesmo não poderia se salvar. Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem absorve todos os nossos pecados para nos libertar e nos trazer novamente a possibilidade de sermos filhos muito amados de Deus. O Criador jamais se esquece de suas criaturas. Deus “pensa” com amor em cada um de nós. Não podemos calcular o amor que Ele sente por cada ser humano criado para fazer parte de sua felicidade.
Vamos procurar destacar as três principais celebrações deste Tríduo Pascal para que estas celebrações transformem nossa vida.




CEIA DO SENHOR (Quinta feira Santa):

 

Nesta celebração recordamos o grande momento da instituição da Eucaristia. Jesus antes de se dar no pão explica com um gesto concreto, lavando os pés dos discípulos, o que significa a consequência da Eucaristia: a caridade sem reservas e o serviço fraterno.

Jesus está presente no meio de nós através da Santíssima Eucaristia. Sua presença não é simbólica, mas real. O amor de Deus não é parcial nem instável como o nosso fragilizado pelo egoísmo. Jesus se dá na mesa da Eucaristia para que possamos viver o seu mistério dentro de uma relação comunitária. Começamos a ser cristãos quando vamos nos esquecendo de nossos planos particulares e procuramos concretizar o Plano de Deus.  A partilha de dons passa a ser essencial para a concretização do cristianismo. O sacrifício de Cristo sempre será recordado através da celebração da Santa Missa. Quando praticamos o bem mesmo no meio do mal, nos tornamos a extensão do que celebramos. A prática eucarística exige de nós uma constante conversão.


 

PAIXÃO DO SENHOR (Sexta feira Santa):


Já nos perguntamos alguma vez sobre o termo Paixão e por que ele é utilizado especificamente neste dia? O amor que Deus sente por nós é capaz de tudo. Até mesmo da entrega da vida preciosa de seu Filho. São João da Cruz nos diz que quem ama não cansa nem se cansa. É através da Paixão do Senhor que começamos a entender o grau de amor que Deus sente por suas criaturas. Jesus foi até as últimas consequências em sua obediência ao Pai para que todos pudessem ter novamente o que foi perdido pelo pecado.
Quando lemos os romances épicos, percebemos alguns elementos parecidos com o que Jesus fez por cada um de nós. Só que sua radicalidade ultrapassa qualquer romance. Não podemos imaginar a dor física, moral e psíquica que Jesus passou para que pudéssemos receber novamente a adoção de Filhos de Deus.
O que é amor? É o que a “grande mídia” (serpente) nos ensina? Não, amor é entrega. Amor é sofrimento para edificação do outro. É saída de si para complementar o outro. Muitas vezes exige despojamento e auto-superação de nós mesmos em favor do que amamos. Jesus se dissolve em amor por cada um de nós. Santa Teresa ao relatar sua conversão definitiva nos comove com suas palavras na recordação do que Jesus passou por cada um de nós individualmente e pela comunidade. O sofrimento de Jesus não pode ser em vão em nossa vida.
A celebração da Sexta feira Santa é muito importante para nós no sentido que nos recorda um gesto concreto de doação e amor da parte de Deus para com toda humanidade.
Ninguém pode se excluir do fato de que Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu próprio Filho para nos salvar. Não estamos sozinhos nesta peregrinação rumo ao Eterno. A solidariedade de Deus chega ao ponto máximo para que possamos ter novamente a plenitude da vida. Neste dia jejuamos e fazemos penitência para sentirmos em nosso corpo o gesto de amor que Jesus passou por nós.



VIGÍLIA PASCAL (Sábado Santo):

A culminância do Tríduo Pascal não é a morte de Cristo. Não é a tristeza de refletimos sobre seu sofrimento e sua Paixão, mas sim a grande vitória da Ressurreição. O mais bonito de tudo isto é que assim como Ele ressuscitou um dia também iremos ressuscitar. Nós teremos esta mesma experiência se vivermos nossa vida na prática do Bem, no amor a Deus e ao próximo. A ressurreição é um processo de aceitação da grande realidade de que somos profundamente amados por Deus. Ela não é um fato isolado, mas compõe toda nossa existência. É uma opção de vida que tem sua culminância quando deixarmos este mundo. Começamos a ressuscitar quando descobrimos o que o Senhor quer de nós e tomamos a decisão séria de concretizarmos em nossa vida sua vontade.
Na vigília pascal rezamos e refletimos sobre a vida que supera a morte. Deus não é um Deus dos mortos, mas dos vivos. Ele nos criou para Ele e só n’Ele encontraremos a verdadeira felicidade. Somos todos chamados à conversão, ao retorno à fonte de nossa origem.
Como cristãos somos chamados a vencer as grandes crises de relacionamento que estamos vivendo para nos unirmos em torno ao Cristo Vivo e presente em nossa história. O homem contemporâneo não se sente amado e não consegue amar. Sem Deus viveremos sempre em uma grande crise afetiva.
Que este momento importante de celebração litúrgica nos sirva para sermos melhores em nossa vida vivendo os valores que o Senhor nos apresenta constantemente em sua Palavra.


“Obrigado Senhor Jesus por tudo que sofrestes para que nós pudéssemos experimentar a alegria da nossa futura ressurreição”.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

DOMINGO DE RAMOS


“RECEBER JESUS É SABER RECEBER SUA CRUZ E RESSURREIÇÃO”.


Iniciamos a Semana Santa com o Domingo de Ramos. É a semana mais importante de todo o ano litúrgico. Vamos recordar o grande fato. O maior gesto de doação da parte de Deus para com suas criaturas. O Filho de Deus dá sua vida para nos salvar.  A vitória do mal é só aparente. Ele parece que sempre está acima do bem. Vemos como tudo o que se escreve e se fala de Cristo nos grandes meios de comunicação, servem para prejudicar a Boa Nova por Ele anunciada. Com a paixão, morte e ressurreição de Jesus o mal não terá mais vantagem alguma sobre o bem. Este momento é muito importante para nós refletirmos sobre o amor que Deus sente por nós e mudarmos de vida. Deus escolheu, em seu plano de amor pela humanidade, o povo de Israel. Deste povo sairá a salvação para toda humanidade a partir da experiência com Jesus o Cristo, o Verbo Encarnado. O maior investimento de Deus para nos salvar aconteceu no Mistério da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus. Ele vem até nós para participar de nossa vida e nos ensinar o essencial. O nosso maior desafio está em definir a importância real de Cristo para nós. O povo exaltava Jesus como Rei de Israel, mas não queria uma mudança de vida. Não queria aceitar a verdadeira transformação que Jesus Cristo veio ensinar na mudança de nossa forma de amar. O louvor a Deus deve estar ligado a uma profunda mudança de valores. Não basta dizer que Jesus é o filho de Davi se não nos convertermos realmente ao que ele nos ensinou.
Vamos nesta semana procurar o sacramento da reconciliação para vivermos com alegria  a passagem de Jesus em nossa vida.




EVANGELHO (Mt 21, 01-11):

Naquele tempo, Jesus e seus discípulos aproximaram-se de Jerusalém e chegaram a Betfagé, no monte das Oliveiras. Então Jesus enviou dois discípulos dizendo-lhes: "Ide até o povoado que está ali na frente, e logo encontrareis uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrai-a e trazei-os a mim! Se alguém vos dizer alguma coisa, direis: 'O Senhor precisa deles, mas logo os devolverá' ". Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta: "Dizei à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta". Então os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia mandado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho e puseram sobre ele as suas vestes, e Jesus montou. A numerosa multidão estendeu suas vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos das árvores, e os espalhavam pelo caminho. As multidões que iam à frente de Jesus e os que o seguiam, gritavam: "Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!" Quando Jesus entrou em Jerusalém a cidade inteira se agitou, e diziam: "Quem é este homem?" E as multidões respondiam: "Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia".

 

"Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!"

O povo de Israel estava ansioso por uma libertação integral nas dimensões política, espiritual e econômica. Imaginava um Messias cheio de força que iria libertar o povo de toda esta situação. Aos poucos os líderes do povo percebem que as características de Jesus não são as mesmas que eles esperavam. Jesus entra em Jerusalém aclamado pelo povo como rei-profeta. Jesus percebe as distorções dos líderes do povo e as acusa publicamente especialmente no sentido que se estava dando ao culto a Javé dentro do templo. As atitudes de Jesus são julgadas de forma errada como se ele relativizasse o templo.
Imaginamos como pode ser este povo que aclama Jesus  ser o mesmo que irá gritar para que ele seja crucificado. O Fato é que no julgamento de Jesus estavam presentes pessoas de outra categoria, que não viram ou que não queriam aceitar os sinais que Jesus havia feito que comprovaram sua missão.
A adesão a Cristo envolve toda pessoa. Não o aceitamos pelas conveniências, não buscamos nele nossa satisfação. A experiência com Jesus nos leva até a misericórdia de um Deus presente e preocupado com a nossa verdadeira realização. O motivo de ter hoje tantas religiões que falam no nome de Jesus é justamente a falta de aceitação do Cristo pleno, do Cristo que compromete e modifica a nossa vida.
Hoje Jesus está presente no meio de nós através dos sacramentos. De uma maneira toda especial do Santíssimo Sacramento. Ele está presente para nos curar e mudar a nossa vida. A experiência de amizade com Jesus tem de nos levar a um amor altruísta.
Fizemos uma pesquisa no Dicionário Enciclopédico da Bíblia (Editora Herder de Barcelona), para entendermos com mais profundidade o sentido e o significado da palavra hosana. É uma palavra hebraica que significa “vem em ajuda, dá-nos a salvação”. Esta palavra se encontra no salmo 118,25 como forma de oração para pedir a Deus sua ajuda permanente depois da vitória. Na festa das Tendas, hosana se converteu em uma oração corrente de súplica e também um grito de louvor. Neste dia se fazia uma procissão com palmas de vários tipos, cantando as orações com a invocação hosana como estribilho. Esta palavra só se encontra no relato da alegre entrada de Jesus em Jerusalém. Todas as fórmulas usadas significam o cumprimento da espera messiânica. Se o povo que recebeu Jesus estava utilizando esta palavra é porque já estava tendo consciência da sua missão. Algumas pessoas do povo, pelos sinais que ele realizava, percebiam uma nova era que se iniciava em sua história.
Jesus vem em nome do Senhor. Ele é o senhor, verbo encarnado que vem aos que se abrem ao novo projeto de salvação. Deus tem uma linguagem paradoxal. Uma lógica diferente da nossa. Ele nos vê como criaturas em particular, com a nossa individualidade e na comunidade com os dons que devem ser partilhados.
Jesus se esquece de sua condição divina para nos salvar. Quer que tenhamos uma experiência profunda do amor de Deus. Ele nos  leva ao encontro com o Pai mostrando o caminho da solidariedade comunitária.
Vamos procurar nesta semana santa acompanhar Jesus em todos os seus passos e seguir seu exemplo de despojamento em favor dos irmãos. Vamos colocar de lado nossos pequenos planos particulares para aceitarmos em nossa vida o que o Senhor nos pede.


“Senhor Jesus muito obrigado por tudo que passastes para nos salvar”.





segunda-feira, 31 de março de 2014

O SINAL DE LÁZARO





“A PRESENÇA DE JESUS TRANSFORMA A MORTE EM VIDA”.


Jesus realizou muitos sinais para comprovar sua missão e divindade. No fato do chamado à vida de seu amigo Lázaro ele nos mostra como é necessário crer na graça de Deus para sermos salvos. A fé se torna a base de tudo. É um pré-requisito para os que querem viver eternamente. Aos poucos vamos nos transformando naquilo que cremos. O crer na Palavra de Deus é acreditar na vida que supera a morte. Cada momento importante da vida de Jesus é uma lição para nós. Ele é o Filho de Deus que será o primeiro a vencer o último inimigo que é a morte.



EVANGELHO (Jo 11, 03-7.17.20-27.33b-45):

Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”. Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. Quando ouviu que estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. Então disse aos discípulos: “Vamos de novo à Judéia”. Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. Respondeu Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, mesmo que morra viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isto?” Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”. Jesus ficou profundamente comovido e perguntou: “Onde o colocastes?” Responderam: “Vem ver, Senhor”. E Jesus chorou. Então os judeus disseram: “Vede como ele o amava!” Alguns deles, porém diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?” De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. Disse Jesus: “Tirai a pedra!” Marta, a irmã do morto, interveio: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”. Jesus lhe respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste”. Tendo dito isto exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e os rosto coberto por um pano. Então Jesus disse: Desatai-o e deixai-o caminhar!” Então muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele.


“Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus? Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, mesmo que morra viverá”.

A passagem do reavivamento de Lázaro nos traz muita alegria e consolo. Neste fato ainda não temos a ressurreição definitiva que será inaugurada por Jesus após a sua morte cruenta na cruz. O capítulo onze de São João se torna a introdução da paixão. Jesus é o Cristo porque tem autoridade sobre a vida e a morte. Esta é grande característica do Criador de todas as coisas. Antes da vinda de Jesus a morte era a “maior autoridade” da existência humana, fronteira intransponível e inexplicável. Jesus nos mostra que há algo muito maior após esta vida. Não adianta nos apegarmos à nossa existência terrena se iremos todos para a eternidade. Só o que iremos levar conosco é o bem que fizermos nesta vida na tentativa de sermos colaboradores diretos com o Reinado de Deus.
Percebemos nesta passagem do evangelho como Jesus é sensível. Como ele, mesmo tendo a onisciência divina, se sente entristecido pela morte de seu amigo. Hoje estamos carentes de verdadeiras amizades que nos façam promover como seres humanos na totalidade. Santa Teresa nos ensina que a nossa relação com Deus acontece em nível de amizade. Quando a amizade é verdadeira e crescente ocorre uma mudança radical. Isto nos consola muito, pois estamos envolvidos pela competição, pela ganância que nos afasta uns dos outros. Sem a fé na ressurreição não poderemos enfrentar a grande crise afetiva que a humanidade está passando.
As limitações desta vida precisam ser digeridas por nós. Temos que fazer uma leitura da presença de Deus em meio as nossas dificuldades. Muitas pessoas, após uma enfermidade, ou quando enfrentam suas próprias limitações, começam a perceber a realidade da presença de Deus em suas vidas. O sofrimento e as limitações podem nos servir como forma de reconhecimento do que somos.
O diálogo que Jesus tem com Marta é muito importante. Marta é uma mulher forte e ativa que deseja encontrar uma resposta imediata para a perda de seu irmão. Jesus afirma que aquele que realmente crer em Deus, ou seja, que se entregar totalmente ao seu mistério; poderá iniciar já nesta vida o seu processo de ressurreição. Estamos nesta vida para aceitar o que Deus projetou para nós. Somos instrumentos de seu amor em meio ao individualismo do mundo.
Somos convidados a perceber a sobrenaturalidade de nossa vida. Não estamos aqui por uma mera coincidência. Devemos colaborar com o projeto de amor de Deus: levar todas as pessoas para junto de si. Muitas vezes estamos dentro do túmulo de nosso egoísmo e preferimos estar amarrados sem escutar a voz de Jesus que nos quer verdadeiramente livres. Devemos ler os sinais de Deus para buscarmos uma profunda conversão.
Jesus nos chama para fora de nós mesmos, para o esquecimento de nosso pequeno projeto para aceitarmos o seu grande projeto de amor. Ele nos ensina que a nossa vida tem um sentido solidário que leva a uma vivência comunitária. Jesus não é mágico. Todos seus gestos são sinais que levam a Deus.


“Senhor Jesus, nos ajude a escutar sua voz e sairmos do túmulo de nosso egoísmo”.






segunda-feira, 24 de março de 2014

A CURA DO CEGO DE NASCENÇA






“DEUS PERMITE AS PROVAÇÕES PARA NOS FORTALECER NA FÉ”.

Quaresma é tempo de renovação de nosso coração. Recordamos os valores essenciais de nossa fé e procuramos remodelar nossa vida conforme o ensinamento de Jesus. Só o amor poderá construir algo em nossa existência mortal em direção ao eterno. A liturgia deste quarto domingo da quaresma nos apresenta mais um milagre de cura de Jesus.  A infinita misericórdia de Deus vai ao encontro de um cego. Ele é curado por ser totalmente aberto ao que o Senhor lhe propõe. Hoje corremos o risco de viver uma cegueira muito pior do que a física nos deixando manipular pela mídia do relativismo. A maior cegueira que podemos ter em nossa vida é não reconhecer a presença amorosa de Deus em nossas vidas.

 

EVANGELHO (Jo 09, 01-41):
Naquele tempo, Jesus viu um homem cego de nascença. Os discípulos perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?” Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto serve que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem à noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo”. Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhes: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”. (que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. Os vizinhos e os que costumavam ver o cego – pois ele era mendigo – diziam: “Não é aquele que ficava pedindo esmola”? Uns diziam: “Sim, é ele!” Outros afirmavam; “Não é ele, mas alguém parecido com ele”. Ele, porém, dizia: “Sou eu mesmo!” Então lhe perguntaram: “Como é que se abriram os teus olhos”. Ele respondeu: “Aquele homem chamado Jesus fez lama colocou-a nos meus olhos e disse-me: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Então fui, lavei-me e comecei a ver”. Perguntaram-lhe: “Onde está ele?” Respondeu: “Não sei”. Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. Ora, era sábado o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos ao cego. Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: “Colocou lama entre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!” Disseram então, alguns dos fariseus: “Este homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado”. Mas outros diziam: “Como pode um pecador fazer tais sinais?” E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: “Eu e tu que dizes daquele que abriu os olhos, é um profeta. Então os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que  tinha recuperado a vista. Chamaram os pais deles e perguntaram-lhes: “Este é vosso filho que dizeis ter nascido cego. Como é que ele agora está enxergando?” Os seus pais disseram: “Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. Como agora está enxergando, isto não sabemos.  E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo”. Os seus pais disseram isto, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato,  os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o messias. Foi por isso que seus pais disseram: “É maior de idade. “Interrogai-o a ele”. Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: “Dá glória a Deus! “Nós sabemos que esse homem é um pecador”. Então ele respondeu: “Se ele é pecador não sei. “Só sei que eu era cego e agora vejo”. Perguntaram-lhe então: “Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos”?” Respondeu ele: “ Eu já vos disse e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?”
Então o insultaram dizendo: “Tu, sim, és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse não sabemos de onde é”. Respondeu-lhe o homem: “Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto ele abriu-me os olhos! Sabemos que Deus não Escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se esse homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada”.  Os fariseus disseram-lhe: “ Tu nascestes todo em pecado e estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade. Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: “Acreditas no filho do homem?” Respondeu ele: “Quem é, Senhor para que eu creia nele?” Jesus disse: “ Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”. Exclamou ele: “ Eu creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus. “Então, Jesus disse”:   “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, afim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem se tornem cegos”. Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto  e lhe disseram: “Por ventura também nós somos cegos?” Respondeu-lhes Jesus: “Se fosseis cegos, não teríeis culpa; Mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece”.


“Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?” Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto serve que as obras de Deus se manifestem nele”.

São João reflete muito sobre o tema do pecado. Nesta passagem temos uma séria discussão e algo concreto que vai se sucedendo na medida em que o cego vai se abrindo ao amor de Deus até o ponto de conhecer pessoalmente o Messias. Temos um caso semelhante ao da Samaritana. Em vez do poço temos uma doença física que assolava este cego desde o dia de seu nascimento.
O fato se complica com o surgimento dos fariseus, homens experientes na aplicação da Lei de Israel, mas infelizmente insensíveis à realidade da dinâmica do amor de Deus presente na história de cada pessoa humana. Não adianta conhecer as coisas de Deus se não sabemos experimentá-lo em nossa vida. Temos dois processos: um de aceitação da presença de Deus, no caso do cego e outro no fechamento ao mistério do amor, no caso dos fariseus. O amor transformante de Deus está a nossa disposição. Se formos humildes seremos renovados. Deus não olha as aparências, quer uma mudança desde dentro. A pior cegueira é pensar que somos tudo. Desta forma impedimos a ação do Tudo em nossa vida.
Jesus se utiliza do barro e da saliva para representar uma nova criação na vida do homem cego. De agora em diante ele irá iniciar um novo processo de reconhecimento do essencial. É interessante perceber que depois de curado o cego não consegue conhecer Jesus através de sua voz. Os cegos são peritos no reconhecimento das pessoas através da voz. Como é que então este cego não soube reconhecer Jesus depois de ter sido curado? É justamente para significar que uma nova vida surgiu para este homem. Pela sua humildade ele irá entrar em um processo de renovação espiritual.
O cego recebe a cura de Jesus que mais uma vez nos prova que Deus é misericórdia. Ele não se esvazia em nossos princípios humanos. Entre a bondade de Jesus e o cego estão outros personagens que não buscam a conversão e não entendem quem é Deus por esta razão são mais cegos que o próprio cego. A nossa sociedade esta cheia de “cadáveres ambulantes”. Pessoas que estão vivas só porque o coração está batendo. Elas não sentem o amor de Deus e são manipuladas pela moda imposta pelo materialismo.
As pessoas que confiam em suas próprias forças aumentam a sua incapacidade de perceberem o plano de Deus, se tornam cegas, mesmo conhecendo de uma forma intelectual a verdade. A Igreja tem fome de santos. De pessoas que experimentem em suas vidas a realidade do amor de Deus. O que adianta conhecer intelectualmente toda a teologia se não temos a mística?
O cego se torna mestre pela realidade que aconteceu em sua vida. Agora ele enxerga, agora é capaz de ver. O que não acontecia antes de ter conhecido Jesus. A doença espiritual dos fariseus é pior do que a doença física do cego. Os mestres se encheram de orgulho pensando que a lei por si mesma sustenta e salva a pessoa. Quando nos esquecemos do sentido de nossa Fé, estamos cegos e fazemos os outros serem cegos através de nosso falso testemunho.
É interessante refletir também sobre a resposta que Jesus dá sobre a doença. A dor e o sofrimento podem ser oferecidos a Deus e se tornarem meios eficazes para nossa salvação. Deus permite o mal para que possamos colher dele bons frutos. A sociedade hedonista, que busca somente o prazer, não consegue entender esta dimensão e mais ainda as falsas religiões que pregam um bem estar à pessoa neste mundo sem perceber que a dor faz parte também do plano de Deus para sermos mais perfeitos. Se o sofrimento não fosse importante Jesus não teria passado tudo que passou para nos trazer a salvação. Não existe cristianismo sem cruz. Fora desta realidade isolamos Jesus de sua missão e nos perdemos em ilusões. Só a verdade nos tornará livres. Não existem verdades. Existe a única verdade nos dada por Deus que supera qualquer ciência e sabedoria humana.
Quando praticamos o bem em nossa vida, aceitando a misericórdia de Deus, começamos a florescer dentro da comunidade. A pior de todas as cegueiras que enfrentamos hoje é o individualismo que faz que a pessoa pense em ser autora de sua própria felicidade independente de Deus e dos irmãos.


 “Senhor Jesus, cure a cegueira de nosso viver para podermos nos voltar para vosso olhar de amor”.