terça-feira, 19 de março de 2013

DOMINGO DE RAMOS: HOSANA AO FILHO DE DAVI.



“O VERDADEIRO LOUVOR NOS LEVA À CONVERSÃO”.

Com o Domingo de Ramos iniciamos a Semana Santa em que celebramos a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Deus escolheu, em seu plano de amor pela humanidade, o povo de Israel. Deste povo sairia a salvação para toda humanidade a partir da experiência com Jesus o Cristo, o Verbo Encarnado. O maior investimento de Deus para nos salvar aconteceu no Mistério da Encarnação. Jesus vem até nós para participar de nossa vida e nos ensinar o essencial. O nosso maior desafio está em definir a importância real da pessoa de Jesus Cristo em nossas vidas. O povo exaltava Jesus como Rei de Israel, mas não queria uma mudança de vida. Não queria aceitar a verdadeira transformação que Jesus veio ensinar na mudança da forma de amar. O louvor a Deus deve estar ligado a uma profunda mudança de valores. Não basta dizer que Jesus é o filho de Davi. Que ele é o nosso Salvador se nossa vida não está sendo transformada e continua sendo a mesma.

Isaías 50, 4-7: A humilhação e a exaltação que o Filho de Deus irá passar. O sofrimento e a alegria dos que se entregam para Deus.

Filipenses 2, 6-11: Jesus se esvaziou para nos preencher de amor. Não seremos felizes nesta vida se não pensarmos nos outros.

Lucas 19, 28-40: Jesus é acolhido em Jerusalém onde ele mesmo será o cordeiro oferecido em sacrifício pela salvação de toda humanidade. Ele será o primeiro a fazer a passagem da morte para a vida.


EVANGELHO (Lc 19, 28-40):

Naquele tempo, Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém. Quando se aproximou de Betfagé e Betânia, perto do monte das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo: “Ide ao povoado ali na frente. Logo na entrada encontrareis um jumentinho amarrado, que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui. Se alguém, por acaso, vos perguntar: ‘Por que desamarrais o jumentinho?’, respondereis assim: ‘O Senhor precisa dele’”. Os enviados partiram e encontraram tudo exatamente como Jesus lhes havia dito. Quando desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: “Por que estais desamarrando o jumentinho?” Eles responderam: “O Senhor precisa dele”. E levaram o jumentinho a Jesus. Então puseram seus mantos sobre o animal e ajudaram Jesus a montar. E enquanto Jesus passava, o povo ia estendendo suas roupas no caminho. Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinham visto. Todos gritavam: “Bendito o rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!” Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: “Mestre, repreende teus discípulos!” Jesus, porém respondeu: “Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão”.


“Bendito o rei, que vem em nome do Senhor”.



Esta entrada de Jesus em Jerusalém, cidade que segundo Santo Agostinho é “Visão de Paz” tem um grande significado. O Cordeiro que dará vida pela humanidade se aproxima. Refere-se à aceitação do Messias enviado do Pai para salvar o seu povo. Jerusalém representa a nossa vida. Precisamos de uma profunda amizade com Jesus para ingressarmos no reino de Deus.
Numa primeira análise desta passagem da vida de Jesus sentimos certa revolta contra o povo ingênuo que um dia recebe Jesus e outro dia o condena. Com isto surge um questionamento: como pode acontecer que este povo que aclama Jesus irá gritar para que ele seja crucificado? O fato é que no julgamento de Jesus estavam presentes pessoas de outra categoria. Que não viram ou que não queriam aceitar os sinais que Jesus havia feito que comprovavam sua missão. Hoje não estamos muito distantes disto. As pessoas se guiam mais por propagandas do que pela verdade. Muitas pessoas querem o mais fácil e cômodo para suas vidas. Aí percebemos o grande número de religiões que são criadas pelo comodismo e falta de responsabilidade dos cristãos batizados. Se Jesus for aceito em nossa vida acontecerá automaticamente uma conversão ou mudança de vida.
A experiência de amizade com Cristo envolve toda pessoa. Não o aceitamos pelas conveniências, não buscamos nele nossa satisfação, nem uma mera prosperidade material. Jesus nos apresenta a Cruz como símbolo máximo da redenção. A experiência com Jesus nos leva até a misericórdia de um Deus presente e preocupado com a nossa verdadeira realização. O motivo de ter hoje tantas religiões que falam no nome de Jesus é justamente a falta de aceitação de Jesus Cristo na sua totalidade. Do Cristo que compromete e modifica a vida. Pelas renúncias momentâneas chegamos à felicidade permanente. Pelas alegrias momentâneas chegamos à tristeza profunda. Tudo o que sai desta realidade é um substitutivo alienante. Vemos a grande mídia tentando de tudo para combater a Igreja apresentando pequenas falhas que fazem parte da humanidade das pessoas que a compõem. O que existe de maravilhoso na Igreja não é apresentado pela mídia, porque a sociedade não quer mudar de vida e quer amar só as coisas terrenas.
Jesus Cristo está presente no meio de nós. Através dos sacramentos e de uma maneira toda especial da Santíssima Eucaristia. Ele está presente para nos curar e mudar nossa vida. A experiência de amizade com Jesus tem de nos levar a um amor altruísta. Vamos aos poucos nos despreocupando com uma realização pessoal. Seremos felizes em conjunto não individualmente.
Jesus se esquece de sua condição superior a nossa em todos os aspectos para nos salvar. Quer que tenhamos uma experiência profunda do amor de Deus. Ele nos  leva ao encontro com o Pai mostrando o caminho da solidariedade que vai ter uma conseqüência comunitária.
Vamos procurar nesta semana santa acompanhar Jesus em todos os seus passos e seguir seu exemplo de despojamento em favor dos irmãos. Vamos colocar de lado nossos pequenos planos particulares para aceitarmos em nossa vida o que o Senhor nos pede.
O povo de Israel estava ansioso para a chegada do Messias, o “ungido do Senhor” que traria a verdadeira libertação que esperava. A espera do Salvador, aos poucos foi deteriorada pela influência política e social dos que se serviam da religiosidade do povo para seus benefícios particulares o que vai desencadear na crise que levará Jesus até a cruz.
Podemos cair na tentação de julgarmos os judeus por não aceitarem Jesus. A situação que se desenrolava não era tão simples. Os interesses que envolviam a religião muitas vezes forçavam o povo a outras atitudes que não estavam de acordo com a sua originalidade. Quando a prática religiosa não traduz a vida ela vai se deteriorando.
Talvez tenhamos certa curiosidade para sabermos o que significa a palavra “hosana” e porque ela é aplicada especialmente neste dia dentro da liturgia. Fizemos uma pesquisa no Dicionário Enciclopédico da Bíblia (Editora Herder de Barcelona), para entendermos com mais profundidade o sentido e o significado desta palavra. É uma palavra hebraica que significa “vem em ajuda, dá-nos a salvação”. Esta palavra se encontra no salmo 118, 25 como forma de oração para pedir a Deus sua ajuda permanente depois da vitória. Na festa das Tendas, hosana se converteu em uma oração corrente de súplica e também um grito de louvor. Neste dia se fazia uma procissão com palmas de vários tipos, cantando as orações com a invocação hosana como estribilho. Esta palavra só se encontra no relato da alegre entrada de Jesus em Jerusalém. Todas as fórmulas usadas significam o cumprimento da espera messiânica. Se o povo que recebeu Jesus em Jerusalém estava utilizando esta palavra é porque já estava tendo consciência da sua missão. Algumas pessoas do povo, pelos sinais que Jesus realizava, percebiam uma nova era que se estava iniciando em sua história. A aceitação de Jesus só se faz com humildade e sensibilidade as coisas de Deus. Por esta razão os nossos apegos e pecados interferem nossa visão de Deus e de sua graça em nossa vida.
Jesus vem em nome do Senhor. Ele é o senhor, verbo encarnado que vem aos que se abrem ao novo projeto de salvação. Deus tem uma linguagem paradoxal. Às vezes parece para nossa lógica humana uma linguagem contraditória, mas Ele nos vê como criaturas em particular, com a nossa individualidade e na comunidade com os dons que devem ser partilhados.
Vamos neste início da semana santa acompanhar os passos de Jesus que culminará na Ressurreição que é o grande sinal que comprova sua divindade.


“Senhor Jesus, renovai em cada um de nós a experiência de amor e acolhida para vos receber em nossa vida”.





quarta-feira, 13 de março de 2013

“O AMOR É CAPAZ DE RESTAURAR AS PESSOAS”.



A experiência do perdão é uma experiência de amor. Uma faz parte da outra. Quando nos sentimos amados somos conduzidos ao perdão. O egoísmo, que tem suas raízes na vaidade, nos afasta do perdão e faz que fiquemos detidos nos aspectos negativos de nossa vida e de nossos irmãos. No evangelho deste quinto domingo da quaresma Jesus perdoa e transforma o coração de uma mulher rejeitada pelo efeito de seus próprios pecados. Devolve-lhe sua identidade perdida pelo pecado e pelas acusações dos homens que não conheciam a infinita misericórdia do Senhor. Cristo detesta o pecado, mas ama o pecador.



EVANGELHO (Jo 08, 01-11):

Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres da lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe a pedra”. E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.


“Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.

O contato com Jesus é contato com sua misericórdia. O amor de Deus por nós é tão profundo que Ele nos perdoa sempre. Muitas vezes erramos nos tornando juízes de nós mesmos e de nossos irmãos. Quando olhamos para eles com um olhar de egoísmo e vaidade não percebemos a transformação que a graça de Deus pode fazer em nós e neles. Não podemos pensar que somos “melhores” simplesmente por cumprirmos com certas normas morais nos esquecendo da essência do cristianismo que é acolher a todos da mesma forma em nosso coração. Só o amor pode construir algo na vida das pessoas. Não somos juízes, mas somos consagrados pelo nosso batismo. Devemos fazer o bem a todos especialmente os mais empobrecidos física e espiritualmente.
Os fariseus e mestres da lei pensaram em “testar” Jesus. No entanto foram eles testados. Chegaram à conclusão que eles também cometiam pecados. Até maiores do que a mulher surpreendida em adultério. Foram obrigados a ter uma experiência de humildade por se perceberem pecadores também. Quando olhamos para nós mesmos tomamos consciência que somos limitados. Por esta razão a humildade passa ser a chave da nossa santificação.
Bem pior do que o pecado de adultério é falar mal de alguém em nossa comunidade. É denegrirmos a figura dos que também foram criados conforme a imagem de Deus. Antes de julgar devemos rezar e acolher. Tornamo-nos feios quando vemos todas as coisas e as pessoas que estão na nossa volta como feias. Transbordamos para fora aquilo que o nosso coração está cheio. Nesta peregrinação não somos juízes de ninguém, mas devemos estar sempre tentando promover os nossos irmãos.
O mundo está vivendo uma profunda crise de afeto e solidão. As pessoas não se encontram mais. Estamos em uma crise mundial de relacionamento humano. A atitude de Jesus é de acolhida que acaba transformando a vida da mulher. Recebe-a em seu coração sem olhar para suas limitações. Pode ser que ela se converta numa das discípulas até a sua morte na cruz. O sentir-se amada fez que ela se comprometesse com Jesus. Mais perdão, mais amor, mais missão. Ela recebeu em Jesus um tipo de amor desconhecido em sua vida. Pode ser que muitos fatores anteriores fizessem que ela não tivesse ainda conhecido o verdadeiro amor. Hoje estamos empedernidos na sensualidade. Ficamos no exterior de nossa vida sem percebermos a fonte do verdadeiro amor que está em nosso coração.
Jesus teria autoridade para condenar e atirar a pedra na mulher, mas age de forma contrária. Prefere acolher e perdoar. Esta acolhida é fonte de renovação. Que maravilha se todos os cristãos tivessem uma verdadeira experiência de perdão. Especialmente no sacramento da reconciliação que é fonte de paz e alegria. Quando o sacerdote nos perdoa em nome de Jesus sentimos uma grande paz em nosso coração.
Como seria bom se descobríssemos o valor do perdão que supera todas as nossas limitações humanas. Preferimos muitas vezes ficar com a imagem negativa de nossos irmãos sem percebermos que também somos limitados em nosso agir e pensar.
O tempo da quaresma é próprio para mudarmos de vida. De pensarmos de forma positiva sobre nós e sobre os nossos irmãos. De buscarmos uma coerência maior com o que cremos. Só o amor poderá construir algo em nossa vida e na vida das pessoas que convivem conosco.

 “Senhor Jesus, renovai em cada um de nós a experiência de amor e acolhida”.



terça-feira, 5 de março de 2013

“A EXPERIÊNCIA DE DEUS PASSA PELA EXPERIÊNCIA DE SUA MISERICÓRDIA”.



O tempo da Quaresma se caracteriza pela busca dos valores essências da nossa vida associados ao que Jesus nos ensinou no anúncio da Boa Nova. A parábola do “filho pródigo” é considerada uma das parábolas de maior significado para meditarmos sobre a infinita misericórdia de Deus para com suas criaturas. Somos filhos pródigos que muitas vezes nos afastamos do Pai pensando que seremos felizes longe de seu infinito amor. A falsa propaganda nos afasta do amor do Pai nos iludindo que seremos felizes longe dele em nosso egoísmo. O gesto mais bonito desta parábola é a tomada de consciência do jovem que vai retornar a uma vida junto do Pai. Saber o que somos na humildade é o belíssimo caminho de nossa conversão.


EVANGELHO (Lc 15, 01- 03.11-32):
Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo. Os fariseus, porém, e os mestres da lei criticavam Jesus. “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. Então Jesus contou-lhes esta parábola: “Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas  o pai disse aos empregados: Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’. Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’”.

“Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”.

Certa ocasião fui interrogado por um jovem a respeito do cristianismo. Sobre qual era a essência de sua doutrina. Confesso que inicialmente me questionei profundamente sobre o assunto, mas a resposta veio prontamente: cristianismo é a experiência da misericórdia do Senhor. É o perdão apresentado por Jesus que passa por nossas vidas porque somos amados eternamente por Deus. Se somos amados somos perdoados e temos a capacidade de perdoar.
A parábola do filho pródigo representa o sentido do cristianismo. Podemos ser as três personagens apresentadas nesta história: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. Em determinadas ocasiões da nossa vida, quando praticamos a misericórdia somos o pai. Quando fugimos de Deus para buscarmos uma alegria momentânea somos o filho mais novo. Que vai ter a sorte de voltar novamente. Quando somos o filho mais velho, somos o tipo de pessoa que segue a Cristo por um perfeccionismo sego. Não reconhecendo o amor de Deus.
Olhando para a parábola percebemos que o pai já sabia do triste destino do filho mais novo. Tinha certeza que seu afastamento não lhe traria felicidade. Longe do pai o filho perde seu ponto de referência. Longe de Deus o homem se perde nas ilusões do mundo. O jovem acabou alimentando os porcos. Uma das piores situações para um judeu que não come carne de porco. Ele estava num país distante sem identidade. Como se encontram a maioria das pessoas hoje.
Não fomos criados para a competição e para o individualismo. Estamos neste mundo para vivermos a solidariedade e termos a coragem de partilhar os bens espirituais e materiais que vamos cultivando em nossa vida. Por mais profundo que tenha sido o nosso pecado, Deus continua nos amando e quer que façamos parte de sua felicidade.
O filho mais novo representa cada um de nós que queremos “criar” planos pessoais independentes de Deus. Quanto mais nos afastamos d’Ele, mais nos perdemos em nosso próprio egoísmo que nos leva a verdadeira solidão. Por esta razão precisamos da oração para obedecer a Deus. Pela oração sabemos o que Deus quer de nós e criamos coragem para concretizarmos sua santa vontade.
Há muitos momentos em nossa vida que acabamos procedendo da mesma forma que o filho pródigo. Muitas vezes pensamos nas “alegrias momentâneas” que o mundo oferece e isto nos serve de substitutivo alienante de nossa própria realidade. A grande mídia tenta nos arrastar para estas alegrias mentindo para nós sobre a busca da felicidade. Para sermos felizes precisamos nos despojar das falsas alegrias para alcançarmos a verdadeira felicidade que não se encontra com muita facilidade. Pelo caminho dos nadas alcançamos o Tudo.
Quem é o filho mais velho? Um homem fiel ao pai? Pode ser que a sua fidelidade estivesse baseada no medo e não no amor. Ele é incapaz de perceber o amor do pai por seu irmão que ele acaba desconsiderando dizendo ser filho do pai e não seu irmão. A inveja muitas vezes é motivo de destruição de nossas comunidades. Muitas pessoas que se consideram “perfeitas” acabam destruindo muitas obras que poderiam salvar muitas pessoas. O inimigo de Deus se serve da inveja para nos separar. Faz que criemos mundos isolados longe da vida em comunidade.
Devemos sair do “cuidar dos porcos” para irmos até o “cuidado do pai” que sempre nos ama, pois somos criaturas suas. É melhor estarmos sobre a responsabilidade de quem realmente nos ama do que ficarmos submissos aos que querem nos aprisionar ao pecado que tem como fruto a morte. Este tempo de quaresma deve ser para nós um momento de cairmos em nós mesmos e nos sentirmos profundamente amados por Deus para nos transformarmos em agentes de seu amor na realidade onde estamos vivendo.

 “Senhor Jesus, queremos sempre reconhecer a realidade da grande misericórdia que sentes por cada um de nós”.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

“A CONVERSÃO FAZ PARTE INTEGRANTE DA VIDA DO CRISTÃO”.





No terceiro domingo da Quaresma, que é um tempo de profunda renovação de nossa vida, somos convidados a uma conversão mais profunda. A parábola da figueira estéril nos faz refletir sobre os momentos em que nos fechamos em nosso pequeno mundo e não produzimos os frutos que são consequência do amor de Deus presente em nossa vida. Se nos afastarmos de Cristo seremos estéreis em nosso caminhar. A nossa vida irá perder seu sentido último. Esta esterilidade é a falta de Fé que leva as pessoas a viver uma vida superficial. Quando amamos e nos deixamos amar nos tornamos fecundos, nosso testemunho é capaz de levar outras pessoas à conversão. O que muda a realidade são nossas atitudes.



EVANGELHO (Lc 13, 01-09):

Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com os dos sacrifícios que ofereciam. Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás”.


“Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás”.

A comparação que Jesus faz da necessidade de uma constante conversão com a figueira estéril é de grande significado. Os judeus ainda pensavam que a relação com Deus significava o afastamento de qualquer sofrimento e provação. A bênção era confundida com bem estar físico e espiritual. A exigência de conversão passa a ser uma norma de vida para os que querem dar um rumo evangélico para as suas vidas. Não existe cristianismo sem conversão. Ele é uma religião revelada, não foi criada pela carência humana. Deus vai ao encontro da pessoa e não o contrário. Por esta razão tem muitas exigências. Não existe cristão sem ser modelado pela Palavra de Deus.
Não sabemos o porquê a figueira estéril estar dentro da vinha. Talvez porque já estava antes dela ser feita ou fosse plantada depois para matar a fome dos trabalhadores. O fato é que não tinha frutos quando o dono chegou e recebe a pena capital por este motivo. A figura do empregado representa a infinita misericórdia de Deus por nós que vem em socorro da figueira. Ele pode ser comparado ao imenso esforço que Jesus fez para nos salvar do pecado. Nós precisamos produzir frutos que são consequência da nossa relação com o amor de Deus. Quando nos sentimos amados produzimos frutos. A nossa conversão leva a fertilidade no amor. Passamos a amar a todos os semelhantes numa intensidade diferente do que nos é apresentado pela sociedade dominada pelas relações comerciais. O mundo nos quer manter estéreis. Esta esterilidade é consequência do egoísmo.
O adubo do defensor da vinha são os sacramentos. Meios eficazes para nossa restauração. A presença constante de Jesus na Santíssima Eucaristia vem em nosso socorro, pois somos fracos e incapazes de produzirmos frutos pelas nossas próprias forças.
O que adianta ao dono da vinha ter uma árvore que só tira da terra o seu sustento e não produz nada para os demais? O esforço de correspondência a graça de Deus faz que sejamos criaturas novas. Vemos o mundo e as pessoas de forma diferente. Quando estamos em processo de conversão valorizamos o que realmente merece a nossa atenção. Só o amor verdadeiro, que nos faz sacrificar-se pelo amado é que pode modificar a nossa vida muitas vezes estéril em nosso pequeno mundo. Todos têm muitos dons que devem ser partilhados com toda a Igreja. Não somos donos de nossos carismas, eles estão em nós para a edificação de nossos irmãos.
O nosso esforço deve ser de correspondência ao empreendimento que Deus faz em nossa vida para vivermos o amor e darmos frutos no meio da humanidade que vive em contínua divisão por influência de seu próprio egoísmo.

“Senhor Jesus, renovai em cada um de nós o desejo de uma profunda conversão”.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR"




O segundo domingo da Quaresma nos leva até o monte Tabor onde aconteceu um fato de grande importância para o cristianismo. Jesus se transfigura (muda de figura pelo poder que ele detém) diante de seus amigos prediletos mostrando a eles a grandiosidade de sua missão e ao mesmo tempo encorajando-os para as provações do futuro. Neste fato da transfiguração do Senhor percebemos a força do amor de Deus presente na história. Jesus se apresenta no meio de Moisés e Elias. Os dois grandes heróis do antigo testamento. O homem que recebeu a lei (Moisés) e o outro que soube aplicá-la dentro do momento de crise idolátrica do povo de Israel (Elias) que havia se perdido com o mal exemplo das outras nações. Jesus é o centro de toda revelação de Deus.



EVANGELHO (Lc 09, 28-36):

Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava acontecendo. Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!” Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

“Este é meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!”

A  “transfiguração de Jesus” é um dos fatos mais lindos e cheio de simbolismo que existe nos evangelhos. O verbo transfigurar é muito pouco usado na nossa linguagem. Podemos deduzir que seja mudar de figura, passar para outra dimensão. Superar aquilo que aparece. É uma mudança de aspecto e não de personalidade. A transfiguração é a manifestação de nosso autêntico ser que é muitas vezes disfarçado pelo nosso próprio egoísmo. Somos criados a imagem e semelhança de Deus e o pecado estragou esta imagem. A transfiguração nos mostra que iremos ressuscitar. Que iremos passar por todas as dificuldades e que pela fé seremos glorificados pelo imenso amor misericordioso de Deus.
Jesus estava em oração quando aconteceu este fato. Por que a necessidade de orar de Jesus se ele era Deus? Aí temos um exemplo fundamental para nós hoje. Não seremos transfigurados se não nos comunicarmos com o Criador. É no ambiente de oração que descobrimos o que Deus quer de nós. Pela oração saímos de nós mesmos e concretizamos a vontade de Deus em nossa vida.
Ao lado de Jesus aparecem duas grandes figuras do antigo testamento. Moisés é o homem da libertação do povo de Israel. Ele sai de seu comodismo para ir de acordo com a vontade de Deus revelada a ele de forma extraordinária. Elias reflete sobre a realidade do povo que havia se afastado da lei revelada a Moisés seguindo a idolatria do Deus da sensualidade. Ele se torna o maior de todos os profetas do antigo testamento. Tem uma experiência única da presença de Deus e quer salvar o povo dos desvios morais e religiosos que estavam vivendo.
Jesus aparece no meio dos dois, dialogando com ambos, pois ele é a plenitude da lei. É a concretização da revelação de Deus ao povo de Israel e que de agora em diante através do testemunho apostólico irá passar um novo estilo de vida para toda a humanidade.
Pedro quer permanecer junto a Jesus transfigurado. Isto não é possível ainda, pois terá muitas provações. Muitas vezes preferimos o gostoso ao bom. Este fato servirá para que ele tome consciência da profundidade de sua missão. Deus permite muitos momentos bonitos em nossa vida para nos sentirmos animados e seguirmos em frente em nosso propósito.
A transfiguração é prova de que somos peregrinos nesta vida. Estamos a caminho do eterno. Um dia nós também seremos transfigurados definitivamente, receberemos o corpo incorruptível que será ocupado totalmente pelo amor de Deus. Nesta vida já estejamos em nosso processo de transfiguração procurando viver a nossa consagração batismal.

“Senhor Jesus venha em nosso auxílio para que possamos ver o que é eterno e nos afastarmos do efêmero do mundo”.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

“A CADA TENTAÇÃO VENCIDA É UMA GRAÇA RECEBIDA”.



O tempo da Quaresma, que se dá início na quarta-feira de cinzas. É um momento litúrgico próprio para refletirmos sobre nossa vida e a forma como estamos seguindo a Cristo. Somos tentados enquanto estivermos na peregrinação desta vida. No momento em que superamos as tentações nos abrimos ao Espírito Santo e nos tornamos mais fortes na fé. Jesus nos mostra que devemos ser fortes para vencermos o mal e nos dispormos a fazer o bem vencendo todos os vícios que nos afastam de Deus.



EVANGELHO (Lc 04, 01-13):

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”. O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isto será teu”.  Jesus respondeu: “A escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’”. Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus, porém, respondeu: “A escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”. Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

“Não só de pão vive o homem”.

As tentações de Jesus são um mistério dentro do plano de salvação de Deus. Jesus nos dá um exemplo de coragem contra o mal vigente no mundo que nos arrasta a pensarmos em nós mesmos e esquecermos a nossa missão. O inimigo é o pai da mentira. Ele se faz de dono de todas as coisas para nos afastar da verdade. Vemos hoje as pessoas revestidas das mentiras transmitidas pela grande mídia que tenta desviar a pessoa de sua origem e destino.
Nesta vida mortal sempre vamos passar por tentações, provações e sofrimentos. A nossa perseverança via nos forjar para sermos bons cristãos no meio do mundo dando um verdadeiro testemunho da presença de Deus em nossa vida.
Somos constantemente tentados em relação ao Ter, ao Poder e ao Prazer. São três grandes ídolos que são alimentados pelas nossas paixões. São bens imediatos ligados a nossa natureza humana em seu grau menos profundo. Por isto se formos conduzidos pelo imediatismo sempre caímos nas tentações. O inimigo de Deus nos apresenta sempre as coisas mais fáceis sem nos apresentar as conseqüências que derivam de nossas opções mal feitas. O pecado sempre é gostoso no começo, mas é fonte de uma grande infelicidade interior que atinge nossa paz de consciência que é o que temos de mais precioso.
Quando experimentamos o amor de Deus em nós, vencemos a tentação do ter pela pobreza nos tornando solidários com os nossos irmãos. Devemos ter Jesus como modelo de entrega absoluta a Deus e esquecimento de si mesmo. Somos atacados constantemente pelo espírito de consumismo. Devemos comprar e gastar constantemente para podermos alcançar mais meios para sermos “felizes”. Infelizmente é esta idéia totalmente contrária a solidariedade pregada por Jesus que está difundida no mundo.
Quando procuramos vivenciar a nossa fé vencemos a tentação do poder através da obediência ao que Deus nos pede. Como cristãos temos alguma missão neste mundo. Devemos olhar sempre para que o Senhor nos pede para não nos perdermos no oferecimento que o mundo nos faz. O ato de fé é a aceitação do mistério de Deus em nossa vida. Quando nos comunicamos com sinceridade com Deus, vamos modelando a nossa vida conforme a sua vontade. Vamos passando pela instabilidade desta vida através da estabilidade do amor que Deus nos transmite.
O prazer que o mundo oferece é vencido através da vivência da caridade. Quando nos revestimos do verdadeiro amor que tem como fonte o próprio Deus, somos novas criaturas, sabemos repartir o nosso amor com todos, especialmente com os mais necessitados.
O que nos faz realmente felizes é o encontro ou a coincidência da nossa vontade com a vontade de Deus. Sempre seremos tentados a nos afastar do essencial, mas devemos ser fortes para vivermos com alegria o que o Senhor nos pede.

“Senhor Jesus precisamos da força do seu amor para vencer as tentações que o mundo nos oferece”.




sábado, 9 de fevereiro de 2013

“AVANÇAR PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS".



O pedido de Jesus para que se avance para águas mais profundas nos joga no mistério de nossa missão como cristãos. Precisamos lutar com todas as nossas forças para vencermos o comodismo e sermos solidários na partilha de nossa vida com todos os nossos irmãos. Ir para águas mais profundas significa crescer em nosso autoconhecimento percebendo o imenso amor de Deus por nós. Crescer em nossa espiritualidade de Base para nos tornarmos realmente missionários do Reino de Deus.



EVANGELHO (Lc 05, 01-11):

Naquele tempo: Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. Ao ver aquilo Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.

“Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”.

Jesus inicia o seu ministério com o anúncio do Reino de Deus a muitas pessoas. Dentro do grupo de seus admiradores se destaca os seus primeiros discípulos. Esta passagem do evangelho é cheia de simbolismos que podemos aplicar diretamente em nossa vida. Jesus está pregando a uma multidão de pessoas e se utiliza das barcas dos discípulos. Após a sua pregação fala para que eles avancem para águas mais profundas e lancem as redes. Deus sabe das nossas limitações, mas não se conforma com elas e faz de tudo para que nos superemos vivendo em maior profundidade o seu amor. Todos são limitados, mas Deus nos ama acima de nossas limitações. Somos massacrados pelas falhas que cometemos e suas conseqüências, mas esquecemos que Deus é misericordioso. A confiança em Deus é fundamental para fazermos o que nos tornará realmente felizes.
Pedro era um homem prático na arte da pesca. Havia passado muitas horas tentando tirar algo das águas para sua subsistência. A palavra de Jesus faz que Pedro confie mais no mestre do que na sua prática e lança as redes. A confiança na Palavra de Jesus se tornou mais forte do que sua grande experiência. Como é importante a nossa entrega ao mistério de Deus para sermos seus instrumentos de libertação integral dentro do mundo. A pesca extraordinária fez que ele professasse a sua fé em Jesus pedindo que se afaste de sua miséria. Jesus surpreende a Pedro quando diz para que ele não tenha medo, pois sua missão será ainda muito maior no comando da Igreja. Muitas vezes desconfiamos da Palavra de Deus porque confiamos mais em nossa experiência e nossa racionalidade nos esquecendo que Deus age no mistério. Até mesmo nas nossas fraquezas e limitações. Deus permite que sejamos limitados para que tenhamos a certeza de que a obra não é nossa, mas sim de seu infinito amor.
Pedro relativizou toda a sua vida para seguir a Cristo. Ele vai abandonar sua segurança para ir de encontro à insegurança do mistério de Deus. Deixa as alegrias momentâneas para ir de encontro à felicidade profunda de estar sempre com Cristo. Os verbos despojar e deixar são pré-requisitos para os que assumem o Reino e suas conseqüências.
Somos convidados a avançar para as águas mais profundas da nossa existência. Não podemos nos conformar com a “ditadura dos meios de comunicação” que nos levam a um simples consumismo que acaba consumindo com a nossa vida. Precisamos descobrir a alegria de sermos solidários. De deixarmos as nossas redes da segurança para irmos onde o Senhor nos indica. Precisamos ser instrumentos de verdadeira libertação para os nossos irmãos que sofrem tantos tipos de angústia por estarem afastados do sentido último de suas vidas. Quem se afasta de Deus não pode ser feliz. O despojamento exigido pelo seguimento de Cristo não é nada em relação ao grande sofrimento daqueles que vivem aprisionados pelas correntes da moda imposta pela “grande mídia”.
Não podemos olhar a nossa vida de uma forma superficial, precisamos avançar para águas mais profundas de nosso relacionamento com Deus, conosco mesmos e com nossos irmãos.

“Senhor Jesus, dai coragem a todos nós para que possamos avançar com alegria nas águas mais profundas de nossa vida”.